[ Sexta-feira, Outubro 29 ]



Naile Goelbasi

SERÁ QUE ELE É ? (IN & OUT)*

1,90, 1,92 aparentemente. uns 30 anos e cara de que trabalha em banco ou com informática. ou em informática num banco. isso, informática num grande banco. é engraçado vê-lo dormir, todo dia ele dorme voltando pra casa, porque como as pernas dele não cabem direito no espaço entre a poltrona da frente, ele se ajeita gostosamente nas duas e vem assim folgado tirando um cochilo. joga futebol todas as quartas-feiras. pelo menos estava dizendo dia desses, no celular, que o esperassem porque estava um pouco atrasado por causa do trânsito, mas que ia jogar sim. até porque já tinha deixado de jogar na semana passada. tem aquelas vozes de locutor de rádio. é bonito, mas não lindo. bonito médio, sabe como? depois de um tempo, esses detalhes acabam tornando-se banais, cotidianos e você entra e sai, melhor ele sai, porque desce antes de mim, e você já não vê tanto interesse no sujeito. não via! hoje quem cochilou fui eu e foi um daqueles sonos que fazem você despertar, digamos assim, com o seu amiguinho lá em baixo em riste. não sei se isso acontece com todo mundo, mas eu geralmente acordo excitado. como era uma situação difícil de esconder, dei uma daquelas ajeitadas descaradas e coloquei meio pra cima pra dar uma disfarçada e fiquei com a mão em cima meio encobrindo. detalhe, o tal cara descrito aí em cima, estava nas poltronas ao lado do outro lado do corredor, recostado de uma forma que eu não via seu rosto e vice-versa. não sei por quanto tempo ele estava observando a cena, mas quando percebi, ele devolveu o gesto de uma forma que mostrava que ele também estava excitado. como eu ainda estava meio assonado, fui pego de surpresa com aquilo e óbvio despertei na hora. dei nova patolada com mais vontade dessa vez. ele, percebendo a repetição já não involuntária, fez que ia arrumar algo na pasta no banco ao lado e olhou pra ver se eu estava acordado. percebi que ele ficou surpreso e meio sem graça em me ver acordado e voltou pra posição inicial. ainda olhou pra mim umas duas vezes até que chegou o ponto onde descia. levantou sem conseguir disfarçar a própria excitação e foi embora. terminei minha viagem imaginando se o cara é mais um destes enrustidos que não se permite viver sua homossexualidade, ou se outros lances virão... e esse final de semana prolongado bem agora, hein? ainda demora muito até quarta-feira?


* este texto é uma obra de ficção. qualquer semelhança com pessoas ou fatos na vida real, terá sido mera coincidência.
(ou não)

9:19 PM Embarque aqui:

[ Segunda-feira, Outubro 25 ]



foto tirada do site do filme

LES CHORISTES

eu bem que tentei assistir algum dos filmes da mostra. o problema é que eu e são paulo inteira tivemos a mesma idéia. também pudera, domingo à tarde o programa ideal é cinema mesmo. daí pra não perder a viagem, resolvi assistir a voz do coração. pra quê? fazia tempo, muito tempo que eu não chorava tanto num filme. nem sei se era pra tanto. talvez seja um momento meu, talvez tenha sido a música, não sei... de qualquer maneira, o filme é encantador. a história é fácil, gostosa de assistir e impossível não torcer pra que aquela garotada se dê bem de alguma maneira, mesmo tendo todas as razões do mundo pra não ter esperança alguma. o filme é falado em francês, o que faz com que a sonoridade ganhe uma qualidade inegável em contraponto ao inglês costumeiro em produções estrangeiras. vá ver! se não estiver em cartaz por aí, espere sair na locadora e assista. é um baita incentivo pra que a gente continue a acreditar que a hombridade, o caráter, o afeto e o amor ainda são, e sempre serão, as maneiras de fazer um mundo melhor.

12:20 AM Embarque aqui:

[ Quarta-feira, Outubro 20 ]



site GNT

domingo Diogo Mainardi deu uma entrevista fantástica para Marília Gabriela. polêmico como sempre, disse que não gosta de música, que odeia são paulo, chamou programas de entrevistas de entediantes - por tabela o da própria - e falou novamente sobre um assunto que já conhecia: a paralisia cerebral de seu filho de 4 anos. durante o bloco falaram sobre um artigo que ele fez em homenagem ao filho, chamado "Meu Pequeno Búlgaro". cacei na internet e reproduzo em seguida porque, além de lindo e tocante, desfaz mais um preconceito, meu inclusive, a respeito de que quem tem essa deficiência é retardado. é um pouco longo, mas vale a pena cada linha.


MEU PEQUENO BÚLGARO

"Eu achava que as palavras eram inofensivas. Para mim, o politicamente correto era folclore. Já não penso assim"

Diagnosticaram uma paralisia cerebral em meu filho de 7 meses. Vista de fora, uma notícia do gênero pode parecer desesperadora. De dentro, é muito diferente. Foi como se me tivessem dito que meu filho era búlgaro. Ou seja, nenhum desespero, só estupor. Se eu descobrisse que meu filho era búlgaro, minha primeira atitude seria consultar um almanaque em busca de informações sobre a Bulgária: produto interno bruto, principais rios, riquezas minerais. Depois tentaria aprender seus costumes e sua língua, a fim de poder me comunicar com ele. No caso da paralisia cerebral, fiz a mesma coisa. Passei catorze horas por dia diante do computador, fuçando o assunto na internet. Memorizei nomes. Armazenei dados. Conferi estatísticas. Pelo que entendi, a paralisia cerebral confunde os sinais que o cérebro envia aos músculos. Isso faz com que a criança tenha dificuldades para coordenar os movimentos. Meu filho tem uma leve paralisia cerebral de tipo espástico. Os músculos que deveriam alongar-se contraem-se. Algumas crianças ficam completamente paralisadas. Outras conseguem recuperar a funcionalidade. É incurável. Mas há maneiras de ajudar a criança a conquistar certa autonomia, por meio de cirurgias, remédios ou fisioterapia.
Um dia meu filho talvez reclame desta coluna, dizendo que tornei público seu problema. O fato é que a paralisia cerebral é pública. No sentido de que é impossível escondê-la. Na maioria das vezes, acarreta algum tipo de deficiência física, fazendo com que a criança seja marginalizada, estigmatizada. Eu sempre pertenci a maiorias. Pela primeira vez, faço parte de uma minoria. É uma mudança e tanto. Como membro da maioria, eu podia me vangloriar de meu suposto individualismo. Agora a brincadeira acabou. Assim que soube da paralisia cerebral de meu filho, busquei apoio da comunidade, entrando em tudo que é fórum da internet para ouvir o que outros pais em minha condição tinham a dizer sobre os efeitos colaterais do Baclofen ou sobre a eficácia de tratamentos menos ortodoxos, como a roupa de elásticos dos astronautas russos usada numa clínica polonesa.
A paralisia cerebral de meu filho também me fez compreender o peso das palavras. Eu achava que as palavras eram inofensivas, que não precisavam de explicações, de intermediações. Para mim, o politicamente correto era puro folclore americano. Já não penso assim. Paralisia cerebral é um termo que dá medo. É associado, por exemplo, ao retardamento mental. Eu não teria problemas se meu filho fosse retardado mental. Minha opinião sobre a inteligência humana é tão baixa que não vejo muita diferença entre uma pessoa e outra. Só que meu filho não é retardado. E acho que não iria gostar de ser tratado como tal.
Considero-me um escritor cômico. Nada mais cômico, para mim, do que uma esperança frustrada. Esperança frustrada no progresso social, na força do amor, nas descobertas da ciência. Sempre trabalhei com essa ótica antiiluminista. Agora cultivo a patética esperança iluminista de que nos próximos anos a ciência invente algum remédio capaz de facilitar a vida de meu filho. E, se não inventar, paciência: passei a acreditar na força do amor. Amor por um pequeno búlgaro.

Diogo Mainardi, para Revista Veja

12:12 AM Embarque aqui:

[ Quinta-feira, Outubro 14 ]



Bob Elsdale

KARMA CHAMELEON

não é fácil. nada fácil. quando você nasce, se é menino, invariavelmente ganha um carrinho e um quarto todo azul. se é menina, uma linda boneca e um quarto fofo cor-de-rosa. vai crescendo e tem que aprender a jogar futebol e ela, brincar de casinha que é já para ir acostumando com o futuro. aprende que existe um deus, só um, e que ele ama quem faz tudo direitinho e castiga quem faz coisa errada. é pecado! também vai aprender, assim que puder compreender, que o homem foi feito para a mulher e que a mulher foi feita para o homem. assim mesmo, dessa maneira não de outra. e tudo que existe e as pessoas que vão encontrar com você na escola, na rua, na faculdade, no trabalho, no clube e pela vida a fora, acreditam e tem como certo, que esta é a receita da felicidade e o de como o mundo deve ser. acontece, que um belo dia, você percebe que odeia futebol, que não acredita num deus só, mas em vários, ou talvez em nenhum!, que não pretende casar com uma mulher e nem ter filhos e acha lindo aquele moço alí que está passando. percebe que teu mundo não é este. então você faz o quê? mimetiza o mundo que aí está para se misturar na multidão? vira camaleão? e o mundo que você quer? e o beijo que você está louco para dar no seu namorado quando encontrar com ele e estiver morrendo de saudades? nunca vai poder ser em público? que tal então começar a mudar o mundo? que tal explicar para os seus sobrinhos pequenos e para sua família inteirinha o que é que você espera de um mundo mais legal para todos? que tal você dizer para aquele cara escroto, durante o cafezinho no escritório, que não, a bunda daquela secretária loira não é um tesão, que tesão é a bunda do edu da diretoria!? que não, você não joga futebol e não sabe quem está em primeiro lugar no brasileirão? que você é homem sim, um homem gay, e que nem por isso é diferente de qualquer outro? enfim, se um dia passar pela sua cabeça tornar-se um camaleão, use ao menos as cores do arco-íris. já é um bom começo!

10:44 PM Embarque aqui:

[ Terça-feira, Outubro 12 ]




COMO PRESENTE EM DIA DAS CRIANÇAS

uma tarde chuvosa de feriado ao som de Cocteau Twins.
um final de semana delicioso ao lado de amigos.
um monte de perspectivas boas no horizonte.
muitas risadas, cheiros e temperos.
o coração calmo e tranqüilo.
a alma livre, leve e solta.
saúde e família unida.
que mais eu poderia querer?

6:40 PM Embarque aqui: